quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O eterno devir: a modernidade e a pós-modernidade suas definições e problemáticas. Douglas José Gonçalves Costa

O eterno devir: a modernidade e a pós-modernidade suas definições e problemáticas. Douglas José Gonçalves Costa Se tudo nos fosse claro, tudo nos pareceria inútil. Paul Valéry 1. Introdução: Uma era panglossiana? Em sua obra Cândido ou o Otimismo Voltaire ironizará o otimismo de Leibniz através do personagem Pangloss, um filósofo que é o preceptor do jovem Cândido, personagem principal do livro. Voltaire se aproxima do pensamento hobbesiano quando defende que o homem tem uma natureza vil e que corrompe a natureza tornando-se lobo do próprio homem ao criar armas e outros artifícios para destruir o próximo. Uma ideia contrária ao pensamento de Leibniz que caricaturado por Pangloss reage a essa assertiva dizendo que todo este mal é necessário para que o bem geral aumente. É justamente essa forma de pensar de Pangloss que quero relacionar à modernidade. Seria a modernidade uma era Panglossiana? Isto é, percebia-se a modernidade como uma era em que apesar de toda a destruição causada pelo homem ao próprio homem, à natureza e as suas inter-relações, rumaríamos para um bem geral que tarda em chegar. Em realidade não seria esse um discurso legitimador da exploração contínua e exacerbada porque tudo se justificaria para se alcançar o bem-estar social? O mais intrigante é que o próprio Pangloss admite nos capítulos finais que seu otimismo era puro discurso, que no âmago do seu ser não acreditava naquilo que pregava como filosofia, fazia-o como consolo para si. Pangloss tinha o otimismo tão imbricado no seu ser que apenas o repetia e jamais o questionava. Não ver o melhor dos mundos possível numa série de desventuras que ocorrem durante sua vida lhe era tarefa árdua. Enxergo muito de Pangloss no pensamento do homem comum e às vezes no intelectual moderno. Por vezes elaboramos um discurso que não se coaduna com a prática cotidiana, um discurso introjetado sem questionamentos, tornamos o discurso parte de nós de tal forma que, como Pangloss, o reiteramos sem acreditar para nos consolarmos diante da miséria humana, uma última centelha de esperança que nos motive a viver e transformar o mundo e a nós. Tal qual expressado por Paul Valéry: “se tudo nos fosse claro, tudo nos pareceria inútil”, reflete a forma como os pós-modernos (como querem classificar alguns) e o homem contemporâneo encara a vida. As incertezas que marcam o mundo pós-moderno ou o mundo moderno líquido são ao mesmo tempo assustadoras e encorajadoras, de modo que o obscurantismo característico reflete uma utilidade não observável tão facilmente. Do contrário as certezas óbvias e rígidas são pouco motivadoras, pois são limitadoras e sendo assim constituem-se em inutilidade, devido ao aprisionamento dos limites possíveis. Inclusive essa discussão sobre a modernidade e a pós-modernidade só tem sentido por conta desse processo de eterno devir, um tempo de incerteza possibilitaa uma problematização de si – que é necessária e pertinente para nos fazer donos de nossos destinos, ou ao menos nos dar essa impressão – e uma reflexão sobre os seus alicerces fundados com a modernidade e o iluminismo. Jamais um homem pré-moderno refletiria sobre a sua era em busca de respostas para as suas angústias, pois suas certezas eram sólidas e o referencial era singular e totalizante. Refletir sobre o tempo presente é traço característico da modernidade, uma era em que a morte de Deus e o niilismo moderno, transferem o ideal de paraíso e coloca em seu lugar o ideal de progresso e futuro. Para Nietzsche o niilismo moderno era prejudicial ao ser humano, porque era uma forma de idealismo, refugiando o homem do mundo que o cerca, negando o presente e consequentemente tornando-o passivo e acrítico de seu tempo/espaço. O ato de idealizar o futuro e o progresso inatingíveis seria o fomentador da angústia humana e o seu descontentamento com o mundo. 2. Definições de modernidade e pós-modernidade em perspectiva Afinal o que é a modernidade e a pós-modernidade? Vários autores se debruçaram sobre o tema. O que existe é uma segunda modernidade ou a pós-modernidade? Sobre essas questões inconclusivas e complexas irei me deter a partir de agora, baseado no pensamento de Zygmunt Bauman inicialmente. Para Bauman a modernidade se divide em modernidade sólida e modernidade líquida, inspirado por uma característica sinestésica da fluidez dos líquidos associa-se à fluidez da segunda modernidade. Destarte há uma mudança de mentalidade de uma modernidade para outra, passamos a não mais tolerar o durável, que sinônimo de tédio, é infrutífero. Conforme Bauman (2001), a modernidade se caracteriza pela constante mutabilidade de seus pressupostos, e sendo fluída ou líquida, diminui a significação do tempo, não se fixando, portanto no espaço-tempo tal qual na modernidade sólida. A modernidade é entendida como o repúdio ao passado e à tradição, derretendo aquilo que era interpretado como valor absoluto e sólido, emancipador do destino humano. Destarte, com o advento da modernidade sólida o que fazíamos era trocar os enferrujados sólidos, por outros mais duradouros e aperfeiçoados. Como se percebe no livro Modernidade Líquida há para Bauman uma modernidade se desdobrando sobre si, “a sociedade que entra no século XXI não é menos ‘moderna’ que a que entrou no século XX; o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um jeito diferente” (BAUMAN, 2001, p.40) já que seus paradigmas são questionados e volúveis, o que temos não é a pós-modernidade, outraera, apenas a modernidade atingindo seu ápice, se vulgarizando ou democratizando no resto do mundo – numa perspectiva espacial – e atingindo os seus limites (se é que eles estão sendo alcançados) de autocrítica, de uma crise interna, uma crise necessária para atingir mais umas décadas de vida. Uma alegoria interessante é a lenda da águia que para viver necessita de um doloroso processo de transformação quando se atinge certa idade para não morrer, já que suas unhas e bicos estão longos e curvos demais para que ela se alimente. Então a modernidade como na lenda da águia para sobreviver passou e passa por um processo doloroso de transformação, precisam arrancar o seu “bico” e “unhas” característicos e necessários para que ela se alimente, e com o tempo um novo “bico” e “unha” irão surgir. Note-se que Modernidade Líquida fora publicado em 2001 e outra obra de envergadura do Bauman O mal-estar da pós-modernidade fora publicado em 1998. Saliento que no livro de 1998 Bauman defendia a pós-modernidade como existente e a sua clareza de pensamento sobre o tema era tamanha que o sociólogo Anthony Giddens o considerava o teórico principal da pós-modernidade, um referencial no que diz respeito a essas questões. O que ocorreu nesse intervalo de tempo para que Bauman mudasse de visão e nomenclatura sobre essa era atual? Essa modernidade líquida seria a conjuntura que emergiu do derretimento daquilo que na modernidade sólida limitava a liberdade individual. Bauman (2001, p.12) é enfático: “A rigidez da ordem é o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos”, portanto a ordem atua de forma ambígua, ora como ponto de partida de uma transformação que visa à liberdade, ora como limitadora da liberdade humana. Assim, a escassez de um projeto coletivo de mudança de sociedade – como ocorria na modernidade sólida - é substituída por elos em que as escolhas individuais se entrelaçam, criando ações e projetos coletivos, porém momentâneos. Dessa forma, os seus atores se unem quando lhes convém agir de forma coletiva, mas despem-se de sua coletividade momentos depois da reunião. Partamos para outro crítico da modernidade, Marshall Berman. Se Zygmunt Bauman tem seu discurso atrelado aos pressupostos teórico-metodológicos da sociologia, o que confere uma análise sem muitos floreios e de certa forma uma escrita simples, todavia repleta de referências a gama de autores tidos como referenciais em seu campo intelectual. Marshall Berman – professor de teoria política e urbanismo – nos brinda com outra abordagem que parte de outros referenciais e problemáticas. Inicialmente sua perspectiva de modernidade parte do ponto de vista estético, a modernidade espiritual para uns, modernismo para outros, ou seja, Berman elabora seu discurso baseado em obras literárias e na arquitetura moderna, de Paris, São Petersburgo e Nova York. A singularidade de Berman e seu esforço ao longo de sua obra Tudo que é sólido desmancha no ar é estabelecer os vínculos dialéticos entre a modernidade espiritual e a modernidade material. Preencher a lacuna que como ele denuncia foi sendo criada com o avanço da modernidade e que carece nos pensadores contemporâneos, mas que fora preservada nos primeiros autores da modernidade, que enfatizavam a interdependência entre estesdois modernismos. Como destaca o autor de Tudo que é sólido desmancha no ar: Ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição. É sentir-se fortalecido pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder de controlar e frequentemente destruir comunidades, valores, vidas; e ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, a lutar para mudar o seu mundo transformando-o em nosso mundo. É ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador: aberto a novas possibilidades de experiência e aventura, aterrorizado pelo abismo niilista ao qual tantas aventuras modernas conduzem, na expectativa de criar e conservar algo real, ainda quando tudo em volta se desfaz. (BERMAN, 2007, p.21-22) Ser moderno é então pertencer a um debate inacabado, estar em processo paradoxal de constante transformação. Um processo infindável do devir em que nunca estamos ou nos sentimos prontos e completos essa angústia que dá vazão à atividade perene de construção, desconstrução e reconstrução, tanto de si quanto do mundo ao redor. Ser moderno “é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, ‘tudo que é sólido desmancha no ar’” (BERMAN, 2007, p.24). Note-se no que diz respeito às definições estes autores não destoam muito, afinal tomam emprestada a metáfora de Marx presente no Manifesto Comunista, se Bauman quer liquefazer a modernidade também quer mostrar como a passagem da modernidade sólida para líquida, liquidou, ou melhor, reinterpretou suas características e instituições, no desejo de que essa sociedade se refaça. Berman por outro lado, enxerga que o termo pós-modernidade só pode ser aplicado coerentemente quando relacionado às artes e a literatura. Este autor defende uma modernidade de longa duração e que não se divide em duas. O que Berman retrata em sua obra é a constituição de vários modernismos interdependentes. Esse modernismo ora se constitui em um modernismo de si no desejo de autodesenvolvimento do herói e do mundo inteiro que ora são sujeitos, ora são objetos da tragédia do desenvolvimento representados pelo Fausto de Goethe. O modernismo do subdesenvolvimento, retratado pela cidade de São Petersburgo, isto é, como a Rússia do século XIX se apropriou dos conceitos de modernidade e o reinterpretou de acordo com suas especificidades locais. O modernismo das ruas, presente na obra de Baudelaire, isto é, como o poeta percebeu e colocou em sua obra os traços do crescente urbanismo da Paris de seu tempo. Dentre outras formas de percepção dos vários modernismos, em diferentes épocas e localidades. Entender a pluralidade da modernidade nos movimentos culturais e estéticos é o marco de diferenciação do pensamento de Berman para Bauman. José Carlos Reis (2003) trará essa discussão de modernidade e pós-modernidade para o campo da historiografia, ao fazer um percurso das formas de conceber a História dos antigos gregos aos nossos dias ele debate o como a passagem de modernidade para a pós-modernidade pode impactar o historiador e o seu fazer historiográfico. Reis sustenta que o momento atual pode ser entendido como a pós-modernidade. Um período que se inicia pós 1945, marcado pela crítica da razão totalizante iluminista, em que os referenciais foram multiplicados, com isso a perspectiva de uma História global é descartada. Isso repercute naHistória que passa do macro para o micro, das classes dominantes para as classes populares, dos grandes grupos para os pequenos grupos e até mesmo o indivíduo. O novo mote é a micro-história que se alia a outros campos do conhecimento como a literatura, a música, a fotografia. O que está em voga no discurso historiográfico são as representações, o movimento circular das ideias e das apropriações culturais. A História totalizante perde seu sentido e se fragmenta como o mundo ao seu redor, os múltiplos referenciais e formas de interpretar os documentos históricos tornam-se múltiplas narrativas. Sob a égide de tal conhecimento podemos rebater (ou melhor, elucidar o equívoco) aquilo que alguns pensadores caracterizaram como o fim da História, quando a História atingiria o seu telos, pode-se entender esse pensamento como a morte da História que traz sob o seu bojo o gérmen da fecundidade de várias histórias. Em outras palavras, quando a história atinge o seu telos e torna a liberdade (exemplificada pelo mercado livre e pela escolha do consumidor imune a qualquer ameaça) de perspectivas, do homem e de suas interpretaçõeso seu baluarte, a história atinge seu fim, enquanto História universal, atrelada à visão marxista – em que o motor da História é a luta de classes, assim na modernidade líquida tal mecanismo passa para o segundo plano na análise do historiador – entretanto, nascem outras correntes historiográficas que dão suporte à operação historiográfica. Sérgio Paulo Rouanet (1987), por exemplo, advoga baseado em ensaios do Habermas que existe a modernidade cultural – entendida como a dessacralização das visões de mundo tradicional por um conjunto de valores do primado da razão – e a modernidade social, que se constitui dos complexos institucionais (estado e economia) que escapam ao controle dos indivíduos. Tendo em vista esses conceitos, para Rouanet, os intelectuais se dividiriam em velhos conservadores e neoconservadores. Os primeiros rejeitam a modernidade cultural e com melancolia notam o declínio da razão, pregando o retorno à pré-modernidade, seus representantes seriam Leo Strauss e Hans Jonas. Os neoconservadores ou pós-modernos rejeitam a modernidade cultural porque a razão iluminista seria um agente de dominação e repudiam a modernidade social porquanto lugar de repressão política e econômica. Seus representantes seriam dentre outros Foucault e Wittgenstein.Para Rouanet o divisor de águas entre modernistas e pós-modernistas se dá pela rejeição à modernidade cultural por estes últimos. Sua tese é de que o que entendemos por pós-modernidade ainda carrega consigo os alicerces do iluminismo, isto é, seus pressupostos como o impulso crítico permanecem vivos até hoje. A centralidade de sua reflexão é sobre a alcunha de pensador pós-moderno concedida por Habermas à Foucault. Rouanet se posiciona contra esse epíteto, argumentando que Foucault critica a filantropia do Iluminismo e não o Iluminismo. Critica os condicionamentos pré-científicos (configurações de poder) e a sua função para fins extra-científicos, jamais critica a ciência em si. O Foucault da História da Sexualidade para Rouanet se insere como pensador moderno, pois seus saberes sobre o corpo e a sexualidade viram instrumentos de libertação – isso vai à contramão do que Foucault havia pensado ao longo de suas obras anteriores, já que debatia que a ampla gama de poderes exercidos pelo homem seria incapaz de torná-lo livre – essa característica revela um Foucault inserido no modo de pensar que inscreve o saber posto a serviço do aperfeiçoamento humano. Traço típico do modo de pensar moderno. Sobre liberdade, retomo o pensamento de Bauman presente em O mal-estar da pós-modernidade ao afirmar que: Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera segurança individual pequena demais. (BAUMAN, 1998, p.10) Percebemos que em seu livro ele faz uma clara alusão à Freud de O mal-estar na civilização, o argumento de que em sua época, Freud analisava que a sociedade havia cedido parte de sua liberdade em detrimento da segurança, já em nossos dias observamos a tendência oposta: cedemos a nossa segurança em prol da liberdade. É assim que Bauman caracteriza a pós-modernidade, uma era em que a busca pela liberdade é o seu motivo condutor, assim o medo e a fragmentação, a incerteza e a insegurança são fatores colaterais da busca desenfreada pela liberdade – outro viés de análise, daqueles que diagnosticam a pós-modernidade como a deturpação das instituições modernas observando os fatores da macroestrutura como o faz Anthony Giddens. 3. O bom, o mau e o feio: Identidades, o papel do intelectual e o modernismo musical. Dentre as problemáticas fornecidas pelos autores sobre a modernidade e pós-modernidade gostaria de tecer alguns comentários sobre as que eu mais me interessei. Obviamente algumas já foram abordadas no tópico anterior, diluídas no pensamento dos autores em questão e nas minhas observações sobre o pensamento deles. Entretanto quero propor três temas para a discussão, de modo que estes temas dialoguem entre si e com o pensamento dos autores trabalhados até então, talvez não explicitamente. Na primeira pauta quero tratar da problemática da identidade, ou melhor, identidades na modernidade e pós-modernidade. Essa temática surge do problema das múltiplas referências que temos na contemporaneidade, sem o estado-nação para nos dizer que somos ou quem devemos ser então o fardo de escolher nossa identidade e ter de reafirmá-la um dia após o outro, ou cambiá-la frequentemente tem pertinência especial. A busca pela identidade é uma forma de nos trazer segurança diante do mundo de incertezas, uma tentativa de solidificar o líquido. No mundo pós-moderno compramos a nossa identidade num mercado de identidades voláteis. “O utensílio produzido em massa é a ferramenta da variedade individual. A identidade só pode ser gravada na substância que todo mundo compra e que só pode ser encontrada quando se compra” (BAUMAN, 2001, p.108). Ao comprar um produto que queremos, tal produto passa a dizer algo sobre a nossa personalidade, lugar onde vivemos ou qual a nossa classe social, etc., entretanto, no ato de comprar o produto que julgamos dizer isso tudo sobre nós, não percebemos que ele fora feito como produto de massas, e que vários outros indivíduos na busca por se auto-afirmarem em sua individualidade, na realidade estão se identificando com outros indivíduos com os mesmos anseios. Assim, sendo nos tornamos garotos propagandas das marcas e objetos que compramos, somos verdadeiros outdoors ambulantes. O povo se identifica em carros, eletrodomésticos, casas, etc. dos quais não passam de reprodução mecânica daquilo que construíram, são essencialmente sem ser. Estupidificados pelo âmbito material, o plano intelectual e espiritual foram postos de lado na construção da identidade. Compreender os processos de construção da identidade na modernidade e pós-modernidade são essenciais para se combater o destino robotizado de identidades forjadas pelo consumo.O ato de comprar ilude o consumidor que se pretende livre, ingenuamente não capta o verdadeiro e amplo sentido de se emancipar do mercado. As identidades são pedaços de madeira em que se refugiam os naufragados da pós-modernidade, nela podemos ter esperança, compartilhar nossos medos e anseios com uma comunidade escolhida por nós e em qualquer parte do planeta e no outro dia descartamos essas máscaras de carnaval indentitárias para vestirmos outra, que condizem com outras comunidades. Todas elas aparentemente sem líderes e livres. As identidades e comunidades a elas atreladas estão em constante construção, um eterno devir. Filósofos como Michel Serres (1930-), diagnosticam como positiva essa desconstrução identitária, porque a identidade postulada pelos estados-nação levaria ao racismo. Serres propõe então o sentimento de pertencimento a múltiplos grupos de seres humanos, uma ideia de cosmopolitismo identitário, não mais o pertencimento a um único grupo, pois isto daria vazão ao fanatismo. Abandonemos, pois a antiga visão de identidade, já que na era da informática, podemos criar novos nomes para nós mesmos, buscar representações de si melhoradas da realidade, alterando a forma como o indivíduo se representa e se identifica. No que diz respeito ao papel do intelectual visto na era moderna como o condutor do povo inculto, o único capaz de pilotar a nau dos tolos conduzindo-o para o bem-estar social. O portador da voz e da consciência de todos. Assim o intelectual para ser útil à sociedade deveria conduzi-la com o seu saber. Sua responsabilidade é o de mudar completamente a sociedade. Já na pós-modernidade, em que se muda a concepção e o papel do sujeito, há uma nova prática do intelectual. O papel do intelectual não será mais o de abrir as portas para o povo e a sociedade, mas o de fornecer as ferramentas necessárias para o povo e a sociedade abrirem as suas portas eles próprios, as portas que julgarem necessário abrirem. Não cabe ao intelectual a tarefa de dizer o que fazer o que não fazer. Tal atitude de cima para baixo não se coaduna com o mundo atual em que o referencial do intelectual é apenas um dentre os vários referenciais possíveis. Trazendo isso para a História, devemos ter em conta na nossa elaboração do discurso, porque como intelectuais, não temos mais o poder nem a incumbência de dizer que tal ou qual sociedade é justa ou injusta. O papel do historiador é interpretar o mundo ao longo do tempo, e não julgá-lo, não podendo apontar os caminhos para os quais a sociedade deve trilhar. Por último quero tratar sobre como o modernismo se manifestou na música. O abandono do sistema tonal em favor do dodecafonismo, isto é, passa-se a rejeição da tradição musical, na busca de novos efeitos sonoros, novos instrumentos são usados e fabricados, aquilo que se achava feio se incorpora à filosofia da nova música, passa a simbolizar aquilo que há de moderno. Rejeitam o legado de seus antecessores românticos, que logo são associados à ideia de atraso e vinculação às classes dominantes. A utilização de amplificadores e a invenção de instrumentos elétricos como a guitarra são características da era moderna. Com isso se percebe a dialética entre o avanço tecnológico e a busca por ampliar os limites estéticos, aquilo que antes era considerado ruído passa a seremincorporadas nas composições, novas configurações na forma de compor são testadas. Os compositores modernos passam a buscar elementos nacionalistas e folclóricos para realizarem uma antropofagia cultural, esses elementos seriam identificados e retrabalhados para a criação de uma arte culta, uma música universal capaz de exprimir tanto o singular como o universal. A música moderna passa a se constituir como portadora de uma mensagem social, capaz de transformar-se a si enquanto arte e capaz de transformar a sociedade. No século XX, alguns regimes totalitários elegeram a música como veiculadora de suas ideias nacionalistas, mas como desviadora do povo dos assuntos políticos – como Villa-Lobos no Brasil durante o estado novo, e DmitriShostakovich na Rússia Stalinista. A música passa a se vincular com a política de modo mais aberto, bem como com novas tecnologias e referências estéticas.

Espinoza e a Dinâmica dos Afetos — com Clóvis de Barros Filho